Conheça a estratégia da campanha “Cuidar da natureza é cuidar da vida”, elaborada pela REPENSE para WWF-Brasil nesta entrevista com João Gonçalves, Coordenador de Projetos Especiais da ONG
Rico em biodiversidade e detentor de uma matriz energética limpa, o Brasil é o país que apresenta mais condições de se tornar uma potência em uma economia sustentável. A promessa não é nova, mas os compromissos sim. Em 2009, o Brasil anunciou a meta de reduzir de 36% a 39% suas emissões de gases de efeito estufa até.
Com o objetivo de ajudar a sociedade brasileira a atingir esse objetivo, o WWF-Brasil lançou a campanha “Cuidar da Natureza é cuidar da vida” sobre a importância das áreas protegidas para combate ao desmatamento, responsável por cerca de 50% das emissões brasileiras.
Na entrevista a seguir, João Gonçalves, Coordenador de Projetos Especiais da WWF-Brasil, explica a estratégia dessa nova campanha, desenvolvida pela REPENSE. Planejada em três fases, ela mostra a relação entre a conservação da natureza e a qualidade de vida da população.
O lançamento da campanha antecedeu a 10ª Conferência dos países membros da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) da Organização das Nações Unidas. Essa discussão acontece entre 18 e 29 de outubro, em meio a um contexto global de taxas alarmantes de perda de biodiversidade no mundo. O objetivo é chegar a um acordo sobre as ações que serão tomadas na próxima década para conservar a biodiversidade.
- Think&Love: Por que a WWF decidiu criar o movimento “Cuidar da natureza é cuidar da vida”?
João Gonçalves: Pela necessidade de informar as pessoas sobre a importância da natureza no dia-a-dia, fazendo uma relação entre a conservação da natureza e a qualidade de vida. Para viver em qualquer grande cidade é preciso ter a natureza conservada. Ela presta uma série de serviços: manutenção climática, ar puro, água limpa e acessível, solos férteis, equilíbrio climático, a prevenção e a recuperação de desastres naturais, segurança alimentar. Há também regiões em que as pessoas usam a natureza como forma de subsistência. Outra questão importante é o potencial da biodiversidade, que está sendo destruído antes mesmo de o conhecermos. Ativos para fabricação de medicamentos, a cura para uma série de doenças, fontes para novos combustíveis e fibras são algumas dessas possibilidades. A campanha “Cuidar da natureza é cuidar da vida” faz parte de um conjunto de ações com objetivo de contribuir para que a sociedade atinja a meta de desmatamento zero até 2015.
- 2. T&L: Para promover a conscientização, seguida pela mudança de comportamento e engajamento, que elementos uma estratégia de comunicação precisa apresentar?
J.G: A campanha “Cuidar da natureza é cuidar da vida” faz parte de uma estratégia de comunicação maior para conscientizar pessoas para importância de preservar a natureza para só depois pedir uma mudança de comportamento. Sem entender a importância das certificações, o consumidor não irá comprar madeira certificada, por exemplo. Além disso, é importante especificar o público-alvo, ter uma mensagem clara, compreensível e objetivos de comunicação bem definidos. Nessa campanha decidimos nos focar num público mais próximo do WWF, o jovem urbano de 14 a 24 anos que conhece nosso trabalho, tem participação nas redes sociais e mídias na internet. Também nos voltamos ao público feminino urbano, formado por mães de 25 a 45 anos, que tem uma tendência maior de se afiliar à ONG por preocupar-se com a saúde e bem estar da sua família.
- 3. T&L: Qual o papel da marca WWF nessas ações de engajamento?
J.G: A marca da WWF tem credibilidade e traz força para mensagem que queremos passar. Ao mesmo tempo, esse fator exige um esforço muito grande de quem estar fazendo a campanha, pois é preciso apresentar uma mensagem com algo a mais para esse público. Não posso dizer apenas “feche a sua torneira”. A campanha “Cuidar da natureza é cuidar da vida” é coerente com tudo o que já fizemos, mas apresenta um diferencial, pois dessa vez não estamos pedindo o engajamento das pessoas. Trata-se de uma campanha para disseminação da informação e conscientização.
- 4. T&L: Por que a WWF escolheu a REPENSE como parceira no desenvolvimento dessa campanha de comunicação?
J.G: A escolha da Repense foi natural, pois a agência já trabalha com WWF na questão de captação de recursos e estruturação do programa de afiliação. Portanto, a escolha se deu pelo expertise da agência em trabalhar nessas áreas com organização não governamentais.
- 5. T&L: Como as pessoas, nas suas decisões cotidianas, podem contribuir para a preservação da biodiversidade e combate ao desmatamento?
J.G: A primeira medida para mobilizar a sociedade civil brasileira a combater o desmatamento é mostrar o risco que o desmatamento traz para a sua vida, alertando sobre as causas desse problema. Depois de informar e sensibilizar as pessoas, podemos mobilizá-las a participar de de pactos, abaixo assinados, entre outras ações de pressão promovidas pela WWF e por outras organizações a fim pressionar governos e órgãos responsáveis a cumprir o compromisso estabelecido. As pessoas também podem defender essa causa praticando o consumo consciente. Devem se conscientizar para no dia-a-dia observar nas suas decisões de compra se o produto é proveniente de áreas desmatadas. O consumo excessivo ou não sustentável acaba contribuindo para aumento do desmatamento. A campanha “O que você precisa para viver?” também procurou gerar uma reflexão a respeito. Em sua primeira fase, em que foi lançada a pergunta como teaser sem vinculação à WWF e a questão do desmatamento, surgiram respostas de todos os tipos, muitas delas relacionadas a itens de consumo. Na segunda fase, as pessoas foram surpreendidas com a resposta: “para viver é preciso que a natureza viva”. Refletir sobre atitudes cotidianas, sobretudo as decisões de compra, é fundamental para que as pessoas participem ativamente do combate ao desmatamento. O modelo de desenvolvimento atual não faz essa conexão entre a natureza e os bens de consumo, pois sempre entendeu os recursos naturais como inesgotáveis. A realidade é que eles estão cada vez mais escassos, por isso é fundamental reduzir nossos impactos ambientais. A pegada ecológica, disponível no site do WWF, nos auxilia nesse sentido. Essa ferramenta calcula o que o nosso estilo de vida representa para o planeta, impulsionando-nos a torná-lo mais sustentável.
- 6. T&L: Qual a importância de criar e manter unidades de conservação? Por que indivíduos, empresas e governos devem apoiar essa causa?
J.G: As unidades de conservação constituem-se em ferramenta efetivas para conservação do meio ambiente e mitigação das mudanças climáticas. O Brasil é uma das nações que mais tem unidades de conservação, dada a dimensão do País, porém ainda é preciso fazer mais. Por isso, a WWF apresentou uma lista de 10 áreas prioritárias para criação de unidades de conservação. Essa questão também está sendo debatida durante a 10ª Conferência dos países membros da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) da Organização das Nações Unidas. O WWF participa como ouvinte dessa conferência. É importante sociedade estar atenta a esse tipo de discussão porque ela decide futuros para o mundo inteiro. Participam todos os países signatários da convenção, 193 ao todo. Eles tinham metas claras para frear a perda de biodiversidade até 2010, mas a maioria delas não foram cumpridas. Discute-se agora formas como reavaliar e reprogramar essas metas.
- 7. T&L: Quais as oportunidades em torno da exploração da floresta em pé? Que novos produtos, setores e negócios podem surgir a partir desse novo modelo de desenvolvimento?
J.G: É importante ressaltar que conservação é diferente de preservação. Preservar significa criar áreas protegidas cercada por todos os lados onde nenhuma atividade econômica pode ser desenvolvida. Já as áreas de conservação manter áreas conservadas conciliando benefícios ambientais e sociais. Assim, é possível interagir com novos mercado de produtos da floresta, orgânicos e certificados, que já têm grandes mercados na Europa e no Brasil começam a ganhar espaço. A isso soma-se a tendência de crescimento dos empregos verdes na próxima década. Portanto, estamos falando de um novo modelo econômico e de desenvolvimento, em que o Brasil tem todas as possibilidades de se tornar uma potência da sustentabilidade. Rico em biodiversidade, detentor de uma matriz energética limpa e projetos de conservação inovadores, falta apenas ao País visão e vontade política.
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